Queima
Eu sou pela tradição, chamem-me tradicionalista, chamem-me retrógada, antiquada, ou qualquer outra coisa. Mas sou, e não consigo entender o sentido de terem alterado os dias a algumas tradições. Nasci em Coimbra, tive o privilégio de ter frequentado a Universidade de Coimbra. E claro, ainda que caseira como sempre, tive o privilégio de estar no meio das tradições académicas Coimbrãs. Serenata na praça da Sé Velha, à meia noite, de Quinta-feira, na primeira semana de Maio. Cortejo dos Quartanistas, na Terça-feira seguinte. A Semana Académica ser realmente uma semana, e não se prolongar o fim-de-semana seguinte. Eh páh, onde pára a tradição? O orgulho em transmitir que fizémos parte do espírito de Coimbra, dos estudantes, da Queima, verdadeira Queima? Agora quem entrar pela primeira vez, vai conhecer os momentos, mas em dias diferentes. Talvez não faça muita diferença, mas definitivamente para mim, algumas coisas deveriam permanecer iguais… Não creio, que com a crise anda no país, uma tarde a menos no comércio e na educação, fizesse assim tanta diferença. Era engraçado, sentir a organização da cidade, por exemplo a nível da limpeza ao fim do dia… no dia seguinte, de trabalho, não havia vestigios dos litros de cerveja no chão, nem da quantidade enorme de lixo! A mobilização de toda a cidade para o cortejo… um dia por ano!!!! Os estudantes todos, incluindo, adolescentes do Secundário, tinham descanso terça à tarde, para poder assistir, festejar, viver os momentos de euforia, necessários à vivência deste mundo louco. Como conseguir a sanidade mental, se tudo em que acreditamos, em que temos orgulho, se muda, aos poucos? É certo que já não estou inserida no mundo académico, por isso, não me faz particular diferença. Este ano pensei estar, mas a vida trocou-me as voltas… entre o querer e o acontecer vai enorme distância! De qualquer forma, manifesto o meu insignificante desagrado. Não concordo, parece que me estão a tirar algo às lembranças que tinha, se passa a ser indiferente, o dia da tradição em que se comemora… qual o sentido de se fazer? Não entendo, sinceramente.
Mas intimamente… isto é tudo SAUDADES…

A última Queima que vivi, mais intensamente, por ser a última, lembro-me do orgulho em partilhar o traje académico, sermos morcegos de dia a vaguear pela cidade. Os olhares curiosos a observar um metro e quarenta, dentro de um traje académico. A capa quente, na noite fria, as lágrimas escorridas na noite da Serenata. O café da praxe no Santa Cruz, a noite no Queimódromo, a assistir às figuras tristes, dos outros claro!!! O cruzar com peregrinos a caminho de Fátima, de madrugada. O andar de autocarro às 7h da manhã, sem ter dormido. Dormir na Consulta de Estágio, com o Orientador ao lado. A companhia da Erika, da Ana, da Vera, da Isabel… amigas, sempre…
Coimbra, sempre…