Penso na minha vida, nas pessoas à minha volta, nos conhecidos com que me cruzo, nos desconhecidos que gostava de conhecer, nas pessoas que demonstram admirar-me e que por vezes me fazem sentir mal, por não ter trabalho, por me perguntarem sempre o mesmo. Penso na minha família, o até quando vou estar no meio deles, até quando vou ter as mesmas pessoas para olhar… depois penso que por vezes sou tão injusta na relação com eles, por não dar sempre a atenção merecida, por me querer rodear de outras pessoas, de problemas, pensamentos e perguntas egoístas sobre mim, e não ver sempre com olhos verdadeiros, o que realmente me rodeia.
Mas há dias em que simplesmente a vida é plena de beleza, em qualquer momento. Simplesmente conseguimos sentir-nos bem pelo que temos, pelo que partilhamos, por quem estamos fisicamente ou em pensamento. Pelo que vivemos de bom no passado, pelo que arriscámos, pela sensação de ânsia que sentimos ao arriscar, ao fazer algo ilícito aos nossos olhos. Sentimo-nos agradecidos por tudo o somos e vamos ainda ser…

Ontem senti-me assim… estou numa fase dessas, talvez sejam só uns dias, mas é um sentimento tão aprazível que ambiciono recordá-lo para sempre e sobretudo lembrar-me dele quando quero dar a volta à tristeza, por se arrastar em demasia… Sinto-me bem comigo própria, sinto-me com vontade de viver os próximos episódios da saga que eu ajudo a construir, tendo a olhar para as situações com ânimo leve, com uma sensação de tranquilidade há muito apagada, derramo uma lágrima de pura emoção, que cai de um olho de cada vez, como compassada, ao ritmo da minha respiração pausada, profunda, intensa. O ver o mundo a decorrer, o pensar na vida da generalidade das pessoas, como uma espectadora atenta, o ter tempo para isso, para perder o meu pensamento e deixar de saber onde começou e porque começou, os contornos que tomou…
A questão do tempo, é tão básica, e ao mesmo tempo, tão fácil de esquecer. Ter tempo… o que significa? Surgiu-me Miguel Esteves Cardoso, numa entrevista já publicada há duas ou três semanas, que por alguma razão foi parar aos meus olhos e a saboreei como se um chocolate eterno fosse… “O maior dos luxos é o tempo. O tempo é o meu maior património.”MEC
Não tenho a idade dele, não tenho sequer um por cento das suas vivências ou experiências, mas quase que me sinto a entrar a cada dia na etapa da sapiência, pelo simples facto de poder dizer com orgulho que não me falta tempo para o que me é importante. Para estar com as pessoas que gosto, para me dar tempo a mim própria, aos meus caprichos, para ler livros que me ensinam perspectivas diferentes, para ver filmes que me comovem, para ouvir música e ter tempo de conhecer o significado das suas letras… Sinto-me com tempo… um luxo que não se paga, um luxo que as pessoas perderam com as rotinas profissionais e pessoais, quer por opções, ou não. Talvez não viva outras coisas que poderia viver, sentir ou até optar… mas hoje, por estar de bem com o mundo, o tempo tem algo de especial… e não quero nunca perder a sensação de o ter, para mim, para os pequenos nadas que constroiem o meu pequeno mundo e a minha stupid little life…
Hoje de manhã, na companhia da minha Maria, eterna companheira de gargalhadas, fonte de alguns momentos patéticos meus, como não parar de rir, em situações menos apropriadas, e partilha de algumas lágrimas, de confidências e já algumas lágrimas sentidas… revi um dos filmes da minha vida: Beleza Americana… é qualquer coisa de muito especial… tambem ele contribui para alguma dose do sentimento de harmonia em que me encontro… é uma lição de vida para a qual não há palavras…
